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Durante muito tempo, muitas empresas trataram saúde mental no trabalho como tema de campanha, palestra ou benefício. Importante, sem dúvida. Mas ainda periférico. A atualização da NR-1 muda esse lugar. Ao incluir expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no escopo do GRO, com vigência prevista para 26 de maio de 2026, a norma deixa um recado claro: o assunto saiu do campo da boa intenção e entrou definitivamente na agenda da gestão.

Para o RH, isso representa uma virada de chave. Não se trata apenas de “cuidar do clima” ou ampliar ações de bem-estar. Trata-se de participar de um processo contínuo e sistemático de identificação de perigos, avaliação de riscos, controle e acompanhamento, dentro de uma lógica de melhoria contínua. Em outras palavras, a empresa não será chamada apenas a mostrar sensibilidade, mas capacidade real de organizar processos, registrar critérios, priorizar ações e demonstrar evolução.

O ponto mais importante talvez seja este: risco psicossocial não se gerencia com percepção genérica. A própria lógica do manual reforça que a avaliação deve olhar para as condições reais de trabalho, e não apenas para o que está escrito em organogramas, descrições de cargo ou políticas internas. O problema, muitas vezes, não está no discurso da empresa, mas no cotidiano silencioso de metas inalcançáveis, liderança despreparada, excesso de demanda, conflitos recorrentes, ambiguidade de papéis e falta de apoio. É nesse chão da operação que o risco nasce.

Isso também ajuda a desmontar um equívoco comum: achar que a NR-1 exige apenas um questionário sobre saúde mental. Não é isso. O que a norma e o manual apontam é a necessidade de uma avaliação estruturada, integrada ao GRO, considerando a NR-17 e partindo da AEP, que funciona como abordagem inicial para identificar perigos, avaliar riscos e implementar medidas de prevenção. Essa AEP pode ser registrada diretamente no PGR ou em documento próprio, o que mostra que a exigência não é burocrática por si só; ela é organizacional e prática.

Outro aspecto essencial para o RH é entender que não existe solução pronta e universal. O próprio manual do MTE indica que não há obrigatoriedade de uma metodologia única para avaliação dos riscos psicossociais. A estratégia deve levar em conta porte, estrutura, recursos, características das atividades e cultura organizacional. Mas há uma condição inegociável: sem confiança, anonimato e participação real dos trabalhadores, o diagnóstico perde qualidade. Quando o colaborador teme exposição ou represália, ele não relata o trabalho como ele é de fato. E sem verdade, não há prevenção séria.

É por isso que a atualização da NR-1 não pode ser lida como uma nova obrigação isolada do RH. Ela exige articulação. RH, liderança, SESMT, CIPA e alta gestão precisam atuar de forma coordenada. Afinal, o risco psicossocial não costuma nascer de um único fator, nem se resolve com uma ação simbólica. Ele pede leitura de indicadores, escuta qualificada, análise das atividades reais e, principalmente, disposição para rever a forma como o trabalho está organizado. Quando a norma fala em participação dos trabalhadores e em melhoria contínua, ela está dizendo, na prática, que a empresa precisa sair da lógica reativa e entrar em uma cultura de gestão.

Também será insuficiente mapear e engavetar. O manual é objetivo ao exigir que o plano de ação contenha medidas de prevenção a serem introduzidas, aprimoradas ou mantidas, com cronograma, responsáveis, formas de acompanhamento e aferição de resultados. Esse talvez seja o maior teste de maturidade das empresas: transformar diagnóstico em decisão. Não basta reconhecer que há sobrecarga, conflito ou falha de suporte. Será necessário indicar quem fará o quê, em quanto tempo e como a empresa saberá se a medida funcionou.

Há ainda um efeito estratégico que muitas organizações estão começando a perceber: fazer isso bem não serve apenas para reduzir exposição regulatória. Serve para qualificar gestão, fortalecer liderança, diminuir ruído interno e construir ambientes mais sustentáveis. Quando o PGR passa a dialogar com outros programas e documentos, inclusive servindo de base para ações de saúde ocupacional, a empresa deixa de tratar o tema como apêndice e passa a incorporá-lo ao seu modelo de prevenção. Isso protege juridicamente, mas, antes disso, organiza a casa.

No fim, a atualização da NR-1 produz uma mudança de linguagem dentro das empresas. Saúde mental deixa de ser apenas conversa sobre sofrimento individual e passa a incluir, de forma objetiva, a análise da organização do trabalho. Para o RH, essa é uma responsabilidade maior, mas também uma oportunidade rara: a de ocupar um lugar ainda mais estratégico, ajudando a empresa a traduzir exigência normativa em inteligência de gestão. Porque, daqui para frente, o diferencial não estará em quem fala mais sobre cuidado, mas em quem consegue demonstrar, com método e consistência, que cuida de verdade.

Dr. Gabriel Abdo – Head de Medicina Corpotativaativa

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